Todas as tardes de maio serão tuas
terça-feira, 19 de agosto de 2025
sábado, 16 de agosto de 2025
almas - anjos – amor- ar – aço - anel - amar - ametista - aquele - asas - além
Amor cheiroso
Capim rosa
Anel ametista
Minha pedra nossa pedra
Espero-te em um campo
imaginário
Traga o anel
ametista - nossa pedra –
Coloque em meu dedo que
sangra
Pelo tempo exangue da espera
Amor ametista vida pedra em busca de quimeras:
Releve revele nivele
eleve o ar do antes
Aquele vidro entre dois
Aquele olhar ametista
E o silencio sideral da
máquina de moer vidas
E o olhar ametista a moer espaços
A erguer pontes de aço para manter o fio
Bridge blue soul, baby
Ponte de almas emaranhadas
Anjos tecendo mapas e linhas
Aço vidro asas fio ar: voltar
Come back to me, baby
Na luz ametista do velho olhar
Come back to me...
Drummond pedra poema e caminho
- Come back to me –
Homem além do vidro
Mundo petrificado olhos a
sorrir
“Nadar naquele sorriso
–
Morrer... morrer naquele sorriso”
Qual no poema
de Eugénio de Andrade...
Ressuscitar o ar de amar
Sair da casa naufragada
Tomar tua mão pendida
Acima do vidro a me
resgatar
Rescue me, baby
Boca a boca
Ar a ar
banjo - beiral - benevolência - beija-flor - Baco
Seguir com o silêncio
atrelado
Ao banjo do anjo
Que segue escondido
No beiral do barraco
Onde as estrelas
Perfuram o sólido
Para atirar com benevolência
Um holograma perfeito de
ti
Que segue meu
Sempre meu
Para todo sempre meu
- Beija-flor com alma de Baco
–
Bárbara Lia
Todas as tardes de maio serão tuas
crianças - chão - cadáveres - céu - centelha - Cassiopeia
O homem de Aran
Deus e o mar de Aran
Branco raivoso - Ireland’s
tides
Indomável deus rebeldia
bruta
Que açoita rochas e crianças
Deus tem um elemento de
amor
Este elemento raro
Fecundado em chão de algas
Clama sóis e estações
gentis
E paciência e força
Na terra onde cadáveres repousam
Não nasce amor
Essa matéria ignorada
Necessita oceanos, montes e
atrito
Amor é semente de angústia
Que floresce em estrelas
– De céu mar e pedra -
Centelha de Cassiopeia
Drummond - displicente – deidade – deixará - despida
“Drummond” nunca
soube da tarde de maio
“Drummond” ficou
ao relento com uma estrela
“Drummond” cansado de costas para o oceano
“Drummond” de calça bege e corpo de Apolo
“Drummond” atravessando a extensão inócua
“Drummond” embalando o filho nos braços nus
“Drummond” – o meu – não se sabe deidade
“Drummond” quer
salvar a América despida
“Drummond” entrou e nunca saiu do meu sangue
“Drummond” – na cama – me deixará
exangue?
“Drummond” caminha
displicente no paraíso
“Drummond”
tritura areias ama o vento e sorri
“Drummond” nem sabe que é
Drummond
“Drummond” eu
levo na asa esquerda de cetim
“Drummond”, algum
dia, voltará para mim?
Bárbara Lia
Todas as tardes de maio serão tuas
embebida – espera – esperar – estrelas – ele
Ar
ressecando veias. A beleza plantada ao lado da árvore
da vida recupera a certeza de que o amor tem olhos claros e olhar gaze embebida em solução hospitalar que cura
tudo. Uma menina de dezesseis anos sonha que em algum dia ou verão ou inverno
apodrecido de espera vai encontrar o
olhar. Ele cairá em seu caminho como
caem as aves cansadas de horizontes sempre iguais, sem saber que será preciso encontrar
cem homens iguais para, enfim, cair em seu caminho o olhar gaze curativa. Aquele
sopro de mãe na ferida da criança - viver é esperar. Dizem que alguns encontram seu amor no jardim da infância.
Não tive jardim da infância. Cresci pobre e com a perna estropiada. Magra, mal
vestida e sem muita chance. Nem sabia que o tempo ia polvilhar homens e estrelas e alguns homens/estrelas com olhos de diamante. E houve
ele:
um pequeno tesouro vestido de roupa cáqui, barba bonita e olhos de nebulosas a
atirar o olhar gaze que cura; e ele nunca
soube e quiçá jamais saberá: o amor tem dessas coisas.
Bárbara Lia
Todas as tardes de maio serão tuas
fat man – fatwa - fé – fevereiros - falácia – fevereiro
Quarenta
mil morreram em Nagasaki: Fat man
ao chão. Era agosto - momento da bestialidade humana e a bestialidade humana
proclama a ausência de um ser maior. Quando penso que és ateu nenhuma luz pisca dentro de mim
como pisca quando – apesar de todo amor – evocamos o defeito do amado e sempre
tem a luz a piscar e nossa alma a virar de costas para o alerta. Em um mundo
onde milhares de inocentes morrem em um único agosto, Deus não há. E lembrar
que naqueles dias - em outro lugar no mesmo Japão - outra bomba maior. Então,
quando penso: fé. Eu me apego ao que
minha mãe sentia como se fosse uma fé
herdada, pois ainda estou a buscar Deus e em alguns dias eu penso que Ele há de
existir, pois há a poesia. No entanto, basta parar diante de alguma tela e Deus
evapora como aquelas pequenas geadas da infância que não duravam nem o tempo do
café da manhã. Eu viro – outra vez – incrédula. Principalmente em fevereiros. Talvez por isto o amor
plantado, há décadas, por ti precisava nascer em um fevereiro como nasceram papoulas no Japão depois da terra
devastada. E se existir algo que se aproxima de Deus tem este nome – Amor.
Então Deus é um sentimento não é um ser. Deus é aquilo que nasce dentro da
gente quando somos bons. Não há como emitir uma lei como os islâmicos – fatwa definitiva: Deus existe!
Eu adoraria crer. Ter a certeza de que Ele não é uma falácia. A tua crença na falta de um deus apenas ilumina-te e fico
com o coração fevereiro de papoulas
renascidas, a te amar.
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