sábado, 16 de agosto de 2025

almas - anjos – amor- ar – aço - anel - amar - ametista - aquele - asas - além

 

 



Amor cheiroso

Capim rosa

Anel ametista

Minha pedra nossa pedra

Espero-te em um campo imaginário

Traga o anel ametista  - nossa pedra –  

Coloque em meu dedo que sangra

Pelo tempo exangue da espera

Amor ametista vida pedra em busca de quimeras:

Releve revele nivele eleve o ar do antes

Aquele vidro entre dois

Aquele olhar ametista

E o silencio sideral da máquina de moer vidas

E o olhar ametista a moer espaços  

A erguer pontes de aço para manter o fio 

Bridge blue soul, baby

Ponte de almas emaranhadas

Anjos tecendo mapas e linhas

Aço vidro asas fio ar: voltar 

Come back to me, baby 

Na luz ametista do velho olhar 

Come back to me...

Drummond pedra poema e caminho

- Come back to me – 

Homem além do vidro

Mundo petrificado olhos a sorrir

“Nadar naquele sorriso –

Morrer... morrer naquele sorriso

Qual no poema de Eugénio de Andrade... 

Ressuscitar o ar de amar

Sair da casa naufragada

Tomar tua mão pendida

Acima do vidro a me resgatar 

Rescue me, baby 

Boca a boca 

Ar a ar


 Bárbara Lia

Todas as tardes de maio serão tuas

banjo - beiral - benevolência - beija-flor - Baco

 


Seguir com o silêncio atrelado

Ao banjo do anjo

Que segue escondido

No beiral do barraco

Onde as estrelas

Perfuram o sólido

Para atirar com benevolência

Um holograma perfeito de ti

Que segue meu

Sempre meu

Para todo sempre meu

- Beija-flor com alma de Baco


Bárbara Lia

Todas as tardes de maio serão tuas

crianças - chão - cadáveres - céu - centelha - Cassiopeia

 


O homem de Aran

 

 

Deus e o mar de Aran

Branco raivoso - Ireland’s tides

Indomável deus rebeldia bruta

Que açoita rochas e crianças

 

Deus tem um elemento de amor

Este elemento raro

Fecundado em chão de algas

Clama sóis e estações gentis

E paciência e força

 

Na terra onde cadáveres repousam

Não nasce amor

Essa matéria ignorada

Necessita oceanos, montes e atrito

 

Amor é semente de angústia

Que floresce em estrelas

– De céu mar e pedra -

Centelha de Cassiopeia

 

 Bárbara Lia

Todas as tardes de maio serão tuas

 

Drummond - displicente – deidade – deixará - despida

 

 



“Drummond” nunca soube da tarde de maio

“Drummond” ficou ao relento com uma estrela

“Drummond”  cansado de costas para o oceano

“Drummond”  de calça bege e corpo de Apolo

“Drummond”  atravessando a extensão inócua

“Drummond”  embalando o filho nos braços nus

“Drummond”  – o meu – não se sabe deidade

“Drummond”  quer salvar a América despida

“Drummond”  entrou e nunca saiu do meu sangue

“Drummond”  – na cama – me deixará exangue?

“Drummond”  caminha displicente no paraíso

“Drummond” tritura areias ama o vento e sorri

“Drummond”  nem sabe que é Drummond

“Drummond” eu levo na asa esquerda de cetim

“Drummond”, algum dia, voltará para mim?


Bárbara Lia

Todas as tardes de maio serão tuas

 

 


embebida – espera – esperar – estrelas – ele

 


Ar ressecando veias. A beleza plantada ao lado da árvore da vida recupera a certeza de que o amor tem olhos claros e olhar gaze embebida em solução hospitalar que cura tudo. Uma menina de dezesseis anos sonha que em algum dia ou verão ou inverno apodrecido de espera vai encontrar o olhar. Ele cairá em seu caminho como caem as aves cansadas de horizontes sempre iguais, sem saber que será preciso encontrar cem homens iguais para, enfim, cair em seu caminho o olhar gaze curativa. Aquele sopro de mãe na ferida da criança - viver é esperar. Dizem que alguns encontram seu amor no jardim da infância. Não tive jardim da infância. Cresci pobre e com a perna estropiada. Magra, mal vestida e sem muita chance. Nem sabia que o tempo ia polvilhar homens e estrelas e alguns homens/estrelas com olhos de diamante. E houve ele: um pequeno tesouro vestido de roupa cáqui, barba bonita e olhos de nebulosas a atirar o olhar gaze que cura; e ele nunca soube e quiçá jamais saberá: o amor tem dessas coisas.


Bárbara Lia

Todas as tardes de maio serão tuas

fat man – fatwa - fé – fevereiros - falácia – fevereiro

 


Quarenta mil morreram em Nagasaki: Fat man ao chão. Era agosto - momento da bestialidade humana e a bestialidade humana proclama a ausência de um ser maior. Quando penso que és ateu nenhuma luz pisca dentro de mim como pisca quando – apesar de todo amor – evocamos o defeito do amado e sempre tem a luz a piscar e nossa alma a virar de costas para o alerta. Em um mundo onde milhares de inocentes morrem em um único agosto, Deus não há. E lembrar que naqueles dias - em outro lugar no mesmo Japão - outra bomba maior. Então, quando penso: . Eu me apego ao que minha mãe sentia como se fosse uma herdada, pois ainda estou a buscar Deus e em alguns dias eu penso que Ele há de existir, pois há a poesia. No entanto, basta parar diante de alguma tela e Deus evapora como aquelas pequenas geadas da infância que não duravam nem o tempo do café da manhã. Eu viro – outra vez – incrédula. Principalmente em fevereiros. Talvez por isto o amor plantado, há décadas, por ti precisava nascer em um fevereiro como nasceram papoulas no Japão depois da terra devastada. E se existir algo que se aproxima de Deus tem este nome – Amor. Então Deus é um sentimento não é um ser. Deus é aquilo que nasce dentro da gente quando somos bons. Não há como emitir uma lei como os islâmicos – fatwa definitiva: Deus existe! Eu adoraria crer. Ter a certeza de que Ele não é uma falácia. A tua crença na falta de um deus apenas ilumina-te e fico com o coração fevereiro de papoulas renascidas, a te amar.

  

Bárbara Lia

Todas as tardes de maio serão tuas

Todas as tardes de maio serão tuas