sábado, 16 de agosto de 2025

homem

  

 

 


Por te amar meu homem aceito o verão irascível da cidade gelada como presságio de poemas antigos ao avesso a dizer que o amor nada tem a ver com  neve com frio ou com noites de ossos doloridos de espera. E que amor tem este calor de centelha. Este abafamento de estrelas dentro do coração. Todas as palavras em semitom a transcrever esta canção. E por te amar meu homem eu carrego as dores da infância pelo avesso. As interrogações da adolescência lacradas em diários sepultados milhas longe dos olhos. E por te amar meu homem eu que fui sempre a mulher transitória com medo de atar-me para sempre ao absoluto amor levo a ti este fio que une os extraviados. E do meu tornozelo estropiado e doente deste pé direito amaldiçoado eu puxo o fio e ato a este branco pé de Adônis e sigo com esta certeza de que ainda que demore metade de um século existe um homem e este homem traz a pele clara e este homem tem olhos claros e este homem tem alma clara e este homem veste roupas claras e este homem tem sentimentos nítidos e este homem caminha ainda no meu passado imperecível para abraçar o tempo e congelar o grão do amor com cuidado no verão mais infernal de uma cidade onde tudo ao redor tem a temperatura deste meu amor: 35,5 °.


Bárbara Lia

Todas as tardes de maio serão tuas

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