Por te amar meu homem aceito o verão irascível da
cidade gelada como presságio de poemas antigos ao avesso a dizer que o amor
nada tem a ver com neve com frio ou com noites de ossos doloridos de
espera. E que amor tem este calor de centelha. Este abafamento de estrelas
dentro do coração. Todas as palavras em semitom a transcrever esta canção. E
por te amar meu homem eu carrego as
dores da infância pelo avesso. As interrogações da adolescência lacradas em
diários sepultados milhas longe dos olhos. E por te amar meu homem eu que fui sempre a mulher
transitória com medo de atar-me para sempre ao absoluto amor levo a ti este fio
que une os extraviados. E do meu tornozelo estropiado e doente deste pé direito
amaldiçoado eu puxo o fio e ato a este branco pé de Adônis e sigo com esta
certeza de que ainda que demore metade de um século existe um homem e este homem traz a pele clara e este homem
tem olhos claros e este homem tem
alma clara e este homem veste roupas
claras e este homem tem sentimentos
nítidos e este homem caminha ainda
no meu passado imperecível para abraçar o tempo e congelar o grão do amor com
cuidado no verão mais infernal de uma cidade onde tudo ao redor tem a
temperatura deste meu amor: 35,5 °.
Bárbara Lia
Todas as tardes de maio serão tuas

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