Uma tarde fiquei horas e
horas rascunhando uma carta. Eu parava no início. Eu escrevi tantas vezes – Querido – que as aves do céu já
trocaram seu nome. Não tens mais nome de poeta agora és apenas “querido”.
Escrevi um bloco inteiro para tentar dizer que há quase trinta anos guardei uma
mirada tua e que – agora - para este olhar escrevi dezenas de versos, para
contar-te - sem que o mundo desabe. Escrevi por horas, escrevi um bloco inteiro
com minha letra parca. Escrevia querido e parava. Escrevia outras frases e
rasgava. A cada vez que tentava soava como uma ladainha que te espantaria para
sempre e para me deixar tranquila nada o assustou como as declarações assustam.
Penso que minimizei a descrição daquele
insight, em uma noite de costas na cama, insone, a pensar nas tuas palavras
daquele dia ao ler um verso meu. Senti que me tocavas de tão longe e que era
pura delicia ter o teu olhar e partilha e evocar-te e voltar no tempo e
colocar-me naquele ambiente asséptico antigo tudo veio para reconstituir a cena
e o momento raro breve e incrível em ‘que
a luz dos olhos meus e dos olhos teus resolveram se encontrar’. Lembrar
isso fez descer um rio de mel dentro de mim, uma quentura de felicidade
ressuscitada. Eu me senti assim naquele instante e exatamente igual tanto tempo
depois. Querido, querido, querido... Talvez, de todo amor que trago, saibas
apenas esta parte a do teu olhar pousando em poesia e de como eu admirava o teu
jeito rebelde: a roupa cáqui, a barba longa e os olhos pousados em mim e o
mundo inteiro a me sorrir por três décadas ou mais.
Bárbara Lia
Todas as tardes de maio serão tuas

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