sábado, 16 de agosto de 2025

regrettes

 




tomar a vida entre os dentes

tomar a mão da primavera

tomar o rio que leva ao éden

tomar a primeira manhã

que vi teu olhar de ametista

tomar a espera

tomar aquele espanto

tomar o som da tua voz entre os dedos

tomar cada fio que te une

e tudo que te traz

ou trouxe

ou trará

tudo há de ser pássaro

como aquela cena do pequeno príncipe

onde ele segura fios atados

a uma imensidão de pássaros

e segue – de volta para casa?

– você se lembra?

a vida era isso... 

uma asa

a vida era isso...

o sabor ardente das cervejas

nas manhãs ensolaradas na feira hippie

e a vida era o canto da cigarra

nas noites insones

a cuidar dos filhos  

a vida

- intensidade que a gente vestia –

era o tempo de estar imerso

estivemos imersos na casa

no trabalho

na rotina

no dever

no sim

no sim absoluto

sempre o sim

que varre todas as gardênias do céu

este sim escancarado vivo

que está inscrito em constituições

atas

parlamentos

e dissemos sim

você se lembra?

e resta apenas esta vontade

de ter coragem

de juntar os fios atados

desde o passado remoto

ao futuro que anseio

– feliz –

e depois voar para um azul

um azul tão absurdo

que vai rasgar minha carne

um azul Monet

um azul Magritte

um azul Van Gogh

um azul estalactites

um azul my way

um azul olhar de Helena Kolody

um azul Picasso

um azul de tormenta

e vida – esta nota musical ignorada –

soará na tua chegada

a tua face

o teu lábio

a tua fúria

o nosso encontro

o nosso grito

a tua pele

e todo azul

enleando os fios

e pássaros azuis

a singrar este céu onde vives

onde viveu

onde viverás

este céu tecido por mim

azul sem arrependimentos

ou com todos eles

lamento -  meu amor - por nunca ter te falado de amor naquela época


Bárbara Lia

Todas as tardes de maio serão tuas                                   

 


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Todas as tardes de maio serão tuas