tomar a vida entre os dentes
tomar a mão da primavera
tomar o rio que leva ao éden
tomar a primeira manhã
que vi teu olhar de ametista
tomar a espera
tomar aquele espanto
tomar o som da tua voz entre os dedos
tomar cada fio que te une
e tudo que te traz
ou trouxe
ou trará
tudo há de ser pássaro
como aquela cena do pequeno príncipe
onde ele segura fios atados
a uma imensidão de pássaros
e segue – de volta para casa?
– você se lembra?
a vida era isso...
uma asa
a vida era isso...
o sabor ardente das cervejas
nas manhãs ensolaradas na feira hippie
e a vida era o canto da cigarra
nas noites insones
a cuidar dos filhos
a vida
- intensidade que a gente vestia –
era o tempo de estar imerso
estivemos imersos na casa
no trabalho
na rotina
no dever
no sim
no sim absoluto
sempre o sim
que varre todas as gardênias do céu
este sim escancarado vivo
que está inscrito em constituições
atas
parlamentos
e dissemos sim
– você
se lembra? –
e resta apenas esta vontade
de ter coragem
de juntar os fios atados
desde o passado remoto
ao futuro que anseio
– feliz –
e depois voar para um azul
um azul tão absurdo
que vai rasgar minha carne
um azul Monet
um azul Magritte
um azul Van Gogh
um azul estalactites
um azul my way
um azul olhar de Helena Kolody
um azul Picasso
um azul de tormenta
e vida – esta nota musical ignorada –
soará na tua chegada
a tua face
o teu lábio
a tua fúria
o nosso encontro
o nosso grito
a tua pele
e todo azul
enleando os fios
e pássaros azuis
a singrar este céu onde vives
onde viveu
onde viverás
este céu tecido por mim
azul sem arrependimentos
ou com todos eles
lamento - meu amor - por nunca ter te falado de amor naquela época
Bárbara Lia
Todas as tardes de maio serão tuas

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